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Receita para o Dia dos Namorados

por Belinha Fernandes, em 14.02.20

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Dia dos Namorados. Propunha que o nome mudasse para Dia dos e-Namorados já que hoje é vulgar que o namoro nasça, vingue e floresça online, definhe e até termine online. Nada que surpreenda, apenas um upgrade do antigo namoro à janela, um sinal dos tempos: agora namora-se nas janelas virtuais e já ninguém escreve longas cartas amorosamente ridículas. A braços com algum fervor revivalista talvez haja quem ainda percute as teclas do laptop com carácter de experiência envergonhada e produza uns e-mails semi-longos apaixonadamente patéticos. Mas o namoro não se mede aos palmos, não, não, ainda que o Whatsup tenha morto as curtas SMS. Os apaixonados da era smart nunca vão saber da magia daqueles ingredientes amorosos anunciados com um bip!Curtas frases roubadas a alguém célebre seguidas de abreviaturas em dramáticas maiúsculas (BJS, ILY) - por causa da sentença dos 160 carateres e do tirano pacote de preços - ou fechadas por declarações minimais: “amo-te memo mt, meu mor”, ou “um bj mt grand pa ti.” Ou, bilingues e alfanuméricas como “tu+eu 4ever.” E o intolerável esbanjamento de espaço - “mt,mt,mt,mt,mt amor pa ti” - ou ainda - “jinhos, jinhos, jinhos e+1jinho” - que pedia quase punição, uma que só podia ser de beijos, claro, de quem sorvia palavra por palavra o amor escrito e queria mais. Qualquer expressão apaixonada era invariavelmente decorada por smileys de :-*(beijos) e em ocasiões especiais até por uma @}--\------,--- (rosa) que assim bordada a sinais no pequeno ecrã do Nokia, se transformava num raro exemplo de electrónicos lavores de habilidosas mãos, até masculinas. (Mentira: já era tudo copy-paste.) Em tempos de recusa de flores pelas mulheres, quem sabe até mesmo as virtuais, aqui declaro que nunca mas nunca deixarei de aceitar chocolates, com um mínimo de 70% cacau puro, fruto de exploração sustentável, preferencialmente enriquecido com pedaços de laranja liofilizada.

Mas bem lidas as coisas, o amor traduzido em palavras, mormente em SMS, era coisa que sabia a pouco, um contentamento descontente, é evidente. Até a Ruth Marlene se queixava disso numa das suas canções:” Tu só namoras por SMS, Não fazes nada só SMS. “ Todos sabemos que o namoro se alimenta de coisas mais palpáveis. Um coração não vive só de palavras, um coração tem fome de mais! É preciso, pois, meter a mão na massa.

Por isso hoje, Dia dos Namorados, resolvi ser generosa e partilhar convosco a receita das bolachas do coração, que é muito fácil, muito fácil de fazer. A minha receita é para duas pessoas – de qualquer sexo, credo ou planeta - e rende muitas porções capazes de satisfazerem o coração mais voraz. É ideal para trincar a qualquer hora e em qualquer lugar, menos na cama porque se soltam muitas migalhas que podem fazer comichão onde menos interessa. Casam bem com quaisquer bebidas quentes e frias, conservam-se a qualquer latitude, e a receita é muito económica. Estas bolachinhas não engordam, não têm glúten, não têm derivados do leite: até o Joaquin Phoenix e a namorada as podem comer sem qualquer remorso. Com a prática comecei a misturar os ingredientes a olho mas aconselho aos iniciantes que usem medidas pois um paladar inexperiente é bem capaz de rejeitar a surpresa antes mesmo de ser surpreendido.

A lista de ingredientes é como segue: 1 chávena bem cheia de romance, 1 chávena de optimismo, meia chávena de respeito, meia chávena de paciência, meia chávena de diálogo, uma colher de sopa bem aviada de bom humor em estado líquido, uma pitada de ciúme e alegria aos molhos q.b. Também uma mão cheia de um ingrediente secreto de que falarei mais adiante. Uma embalagem de confiança para polvilhar. Uma noz de dedicação para untar o tabuleiro de levar ao forno. Doce de Sorrisos para decorar é um extra, uma opção.

Como preparar? Numa tigela funda, de vidro, pormenor importante para que possa ir apreciando a honestidade da mistura, junte o romance, o optimismo, o respeito e a paciência. Com uma colher de pau remexa os ingredientes gentilmente para ficarem bem ligados e com uma aparência homogénea. Acrescente o humor aos poucos, mexendo agora mais vigorosamente, em especial se ele for inteligente, e depois uma pitada de ciúme. Finalize juntando alegria aos molhos e o ingrediente secreto. É o momento de amassar usando as mãos até que a massa se desgrude completamente da da tigela e ganhe vida própria. Quando conseguir agarrar a massa em bola nas suas mãos é possível que dela se solte um cheiro estranho a dúvida. Não se rale. É assim mesmo, está no bom caminho.

É altura de transferir a bola para uma superfície plana que previamente polvilhou com bastante confiança. Sove-a até a massa ficar rosada e soltar suspiros apaixonados. Coloque de novo na tigela, envolva-a num tecido meigo de lã virgem e coloque ao abrigo das correntes de ar. Aguarde o milagre acontecer. Em meia hora a massa duplicará de tamanho, o que será mais do que suficiente para duas pessoas se enfartarem de paixão. Será depois tempo de abrir a massa numa superfície lisa com o auxílio do rolo. Se não tiver um, pode e deve usar uma garrafa de bom vinho. Da minha própria experiência, se usar a garrafa e beber um copo ou dois enquanto estende a massa, as bolachas ainda ficam melhores. Ah, é importante que a massa fique com uma espessura bem fina, até quase transparente, prova de que não tem nada a esconder, mas resistente, pois o maior teste estará por vir.

Depois de estendida use um cortante em forma de coração para fazer as bolachas. Prima com firmeza mas suavidade. Já me esquecia e é extremamente importante! Antes de começar a cortar ligue o forno e deixe o termóstato alcançar precisamente os 160º. Um grau a menos e as bolachas não crescem, um grau a mais, os corações dilatam, endurecem e secam. A química do amor parece elementar mas é muito exigente em pequenos detalhes e não vamos deitar tudo a perder por causa de uma distração, certo? (Pensando melhor, beber o vinho pode ser perigoso para os iniciantes.)

As bolachas do coração vão ao forno durante 20 minutos num tabuleiro bem untado de dedicação que é para não esturrarem demasiado na base o que pode causar uma certa amargura. Dê um espacinho entre elas, verá que crescem bastante. Quando estiverem douradas e o aroma do amor tiver arrebatado os quatro cantos da sua casa, estão prontas. Apague o lume e deixe que arrefeçam dentro do forno pois ficarão mais estaladiças. Uma vez frias, retire-as e decore com Doce de Sorrisos ou outro que prefira, por exemplo, Doce de Sonhos.

Não me esqueci do ingrediente secreto, não, mas como disse, é secreto, não posso revelar do que se trata. No entanto não é nada difícil de adivinhar o seu nome. Esse ingrediente é o responsável por fazer duplicar a massa. Sem ele, a massa não cresce e não chega para fazer bolachas para duas pessoas. Já experimentei. Partilhei as poucas bolachas mas nenhum coração ficou saciado, apenas, talvez, o estômago.

Não se esqueça de fotografar as suas bolachas e colocar a #bolachasdocoração quando partilhar nas redes sociais no Dia dos Namorados. #oamorestánoar, #oamorélindo, #diadosnamorados, #receitasdebolachas

publicado às 11:41

Parabéns Parasite!

por Belinha Fernandes, em 10.02.20

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É oficial. Filmes legendados são tão bons como quaisquer outros para Hollywood. Pelo menos este ano, são, no que toca à opinião da Academia. Não há garantia de que no próximo ano ainda sejam. Foi épico, ah, pois foi. Parabéns Parasite, que tal como a família pobre infiltrada na casa dos ricos se conseguiu infiltrar subrepticiamente na casa forte dos filmes sem legendas! Foi uma noitada e tanto. Já não me recordo, e não quero recordar, da última vez que assisti em directo à entrega dos Oscars. Não é preciso fazer contas ao tempo que passou, basta olhar as caras de Spielberg ou de Tom Hanks ou Laura Dern.

Anos depois constato que a cerimónia da entrega dos Oscars é o que é, não mudou assim tanto, um anfitrião a menos, mais prémios para distribuir, mais mulheres e mais negros, mas, parece, ainda não que baste. Ainda assim os resultados, no que à diversidade toca, foram até positivos mesmo se o espectáculo tenha dado muito palco aos ausentes, e não apenas no in memoriam, - onde, paradoxalmente, alguns foram esquecidos - como se a Academia sentisse culpa e se quisesse redimir de alguma coisa: o dilema de fazer nomeações que agradem a todos e todas continua presente.

Logo no número de abertura, Janelle Monae cantou com a energia e garras habituais, e dançou com o manto de flores de Dani, com bailarinos também vestidos como as personagens de Midsommar, e de Us, onde Lupita Nyong'o interpreta dois papéis - representantes de um eterno género esquecido pelos Oscars, até The shining não ganhou nenhum - Queen and Slim – que não vi - e Dolemite, - um filme com alguns bons créditos enquanto comédia, uma boa interpretação de Eddy Murphy, e que homenageia a história do cinema improvável. Depois, a reunião do trio de actrizes Gal Gadot, Brie Larson e, Sigourney Weaver, a Super Mulher, a Capitã Marvel e a Tenente Ripley, e um discurso sobre todas as mulheres serem super heroínas. São apenas dois inequívocos apontamentos sobre o facto de tanto afro-americanos como mulheres ainda não estarem presentes nas listas de nomeados como seria desejável. Esta questão acaba também por informar o humor que agita a noite, e, a dado momento, parece ser verdade aquilo que depois Phoenix vem dizer, que o cinema – e, em particular o palco privilegiado dos Oscars - cria uma plataforma para dar voz aos que não têm voz. Esta nuvem que paira sobre os Oscars – e a indústria em geral - faz com alguns cinéfilos se enfadem e digam que antigamente é que era lindo. Não esperem que a controvérsia desapareça. Um dia até será possível que deixem de existir Oscars para as mulheres e para os homens. Afinal o que fazem uns e outros? Levantam pesos? Não, apenas representam papéis. Já pensaram nisso?

Os Oscars são os Oscars, mas, também, apenas os Oscars, mais um prémio, entre muitos, com um fito específico, como tantos outros, apenas o mais desejado ou popular, assim nos é vendido. Parasite já era um grande filme antes de ganhar os Oscars. Agora ganhou prestígio. Todavia, o grande juiz sobre a grandeza de um filme não são os Oscars, nem os Bafta, nem os Leões, nem as Palmas – eis um festival que premeia mais a autoria do que a qualidade comercial e técnica conjugadas, estes certo paradigma de valores de produção que são a fórmula aparente dos Oscars – e ninguém precisa deles para ver cinema. Há bom e mau cinema nos Oscars e fora deles, idem. Não é uma questão matemática, é de ponto de vista. Os Oscars são boa publicidade, são a indústria a dizer que está viva e de boa saúde, e a vender-se um poucochinho mais ao mundo a cada ano. Só isso. Quem é que ainda é ingénuo e não sabe? E quem é que fica acordado a ver os Oscars sabendo como é e o que a casa gasta para depois apenas censurar? Se não presta para nada, mudem de canal, vão ler um livro, vão fazer amor, dormir, qualquer coisa. Não são apenas os portugueses que estão fartos da cerimónia, são também os americanos. É o mundo inteiro. Mas querer que os Oscars sejam algo diferente do que são é como querer que o Festival da Canção seja outra coisa. É de esperar sentado e ir fechando os olhos como o Scorsese fez enquanto Eminem agitava a sala, com a sua canção oscarizada, Lose yourself, que já tem barbas, como ele mesmo, num dos poucos momentos verdadeiramente animados da noite.

Assistir à cerimónia até ao fim foi tal e qual como ver filmes cujo final coroa todo o slow-burning de uma história. Parasite tornou-se o primeiro filme em língua estrangeira a vencer o certame. Bong Joon tinha dito que quando as pessoas (os americanos) se habituassem a ver filmes com legendas podiam descobrir bom cinema, uma afirmação questionável, sendo o cinema uma linguagem da imagem, uma expressão universal. Parece que foi ouvido. A culpa de muitos filmes passarem despercebidos talvez seja menos das legendas que de outra coisa que também condena os pequenos filmes independentes norte-americanos a dificilmente alcançarem a ribalta. Ter super-poderes não chega para voar até ao palco do Dolby Theater, nem para mulheres, nem para homens, nem mesmo para os filmes se não existir dinheiro no bolso dos produtores para fazer toda uma campanha. Não são só as legendas. O universo cinematográfico é vasto e está repleto de estrelas de várias grandezas. Felizmente, deixar que os Oscars as ofusquem com todo este seu conhecido brilho e barulho mediático também depende da nossa vontade.

publicado às 23:04

Fonte
 
Corvo - Corvus corax

Leonilde, empregada de limpeza, conheceu Raul enquanto regateava o preço de um Poirot e o imaginava na sua cama a folhear o Kamasutra. Ele já não tinha todos os dedos nem ela o juízo completo. O dia amanheceu na forma de um pedido de casamento:

– Casa comigo. Nunca mais terás de comprar um livro.

Um ano depois viviam nos arrabaldes de uma cidade perdida. Nunca faltavam à missa exceptuando se andavam longe, fazendo feiras de velharias. No regresso, depois do almoço habitual no Centro Social Paroquial, sempre visitavam o prior.

– E novidades da terra?

– O Engenheiro Garcia.

– Que descanse em paz.

– Raul, como vai o negócio? Não é fácil viver com esse infortúnio...

– Sr. Padre, não o é. Três dedos chegam para fazer o sinal da cruz. – E sorria. – Esse Engenheiro é o que morava na vivenda azul?

Daí a dias tocavam à porta do falecido para apresentar sentimentos:

– ...e se tiver por aí alguns livros que estejam só a ocupar espaço, nós podemos ajudar.

Certa vez Leonilde trouxe do lixo uma televisão que ainda funcionava. Colocou-a numa pilha de livros. À Sexta nunca mais perdeu o Concurso que dantes via no café. Enciclopédias faziam de banco. Então uma camioneta veio descarregar um frigorífico enorme. Telefonara e acertara na resposta. Mas Leonilde ligou-o e o quadro eléctrico estoirou.

– Serve de estante, – resolveu Raul.

Estavam nisto quando a TV bateu à porta para os transformar em estrelas por um minuto.

A coberto da noite, entre romances, confessou-lhe:

– Assaltei a casa de um ricaço. O meu cúmplice foi preso, os cães perseguiram-me pinhal adentro. Ia perdendo as duas mãos. Safaram-se estes, – disse sorriu, afundando os dedos nos pelos púbicos dela.

Leonilde saiu da cama. Voltou da cozinha e saltou-lhe em cima, colando-lhe uma faca gelada ao pénis:

– Voltas a mentir, capo-te.

Dito isto, cavalgou-o com fúria.

Nem um mês volvido, Raul entrou de rompante na velha casa.

– Onde o guardaste?

Pela porta forçada a pontapé entraram dois colossos que caíram em cima do maneta. Leonilde, atirada contra a parede, desmaiou. Voltou a si e Raul no chão, de olhos temerosos nela:

– O envelope?

– No frigorífico.

– Vai ver. Vasculharam tudo.

Ali estava, no congelador, atrás dos seus livros preferidos. Abriu-o. Era a primeira edição dos sonetos de Antero de Quental. Lembrava-se do célebre roubo ter sido notícia há alguns anos.

– Leonilde! – chamou Raul, tentando levantar-se.

Da cozinha chegou-lhe aos ouvidos um som metálico.

publicado às 15:00

Desafio de escrita dos pássaros #17: Luz e Sombra

por Belinha Fernandes, em 10.01.20
 
Fonte
 

Quando a Estrela do seu Sistema finalmente se apagou, o grupo dos Inteligentes ligou a Grande Lux e, limitando o seu alcance, assim dominou uma parcela da população do território sobrevivente. Totalmente dependentes dos Radiantes por mais de dois séculos, os Sombrios revoltaram-se, decididos a conquistar um bem maior que a liberdade. Na história do Reino de Pantona, hoje desaparecido, o trágico episódio nunca foi registado.

A Luz irradiava de uma Torre de muitos quilómetros ligada ao núcleo do Planeta. Os Radiantes abriam as escotilhas negras e raios luminosos estendiam-se como um manto dourado sobre Pantona. Os Sombrios choravam o desolado território assim descoberto pela penumbra. Quando as trovoadas artificiais iluminavam os céus, o arco-íris era uma memória que feria e o verde-musgo uma ténue esperança. A Sombra aprisionara o presente e condenava o futuro. Consumidos pelo desejo de ver tudo, o que estava longe e perto, a revolta contra esta pálida impressão da vida cresceu neles como um fungo.

Um grupo de Rebeldes foi consultar a Consciência do Reino. Ela comunicou que as sortes não eram favoráveis. Pereceriam em vez de renascer das trevas. Guerra, nunca. Negociação era o caminho. Um Emissário partiu e nunca regressou. De novo os Rebeldes a auscultaram sem entender o enigma: “Há luz para além do vermelho ao violeta. A sombra não é nossa inimiga nem a luz nossa aliada.”

O regimento de armaduras negras movia-se a coberto da Fase Escura. Os Radiantes dormiam quando a plataforma energética foi invadida, dominados os poucos operadores ali presentes. Comandaram-lhes que libertassem a Luz sobre o Reino e, quando eles se recusaram, mataram-nos um a um até conseguirem o pretendido. As escotilhas negras subiram lentamente. Selaram as portas da Torre, um grupo de guarda. Outro avançou para o Palácio Radioso e também ali pelo poderio da força e da surpresa conseguiram subjugar as Governanças do Reino.

O assalto fora uma vitória inesperada. Eufóricos, entregaram-se a festejos intoxicantes, observando a Luz crescer com intensidade inaudita. Choravam, deslumbrados com o seu esplendor, não conseguindo desviar o olhar, acometidos por uma cegueira que era o menor dos males. Em Sombria, lentamente, a pele da face e corpos nús que se banhavam na desejada Luz, libertos das habituais máscaras e fatos de protecção contra o álgido quotidiano, começava a borbulhar, a ferver e a cair. Alguns Sombrios refugiavam-se a tempo no subsolo, aguardando o regresso da penumbra com preces nos lábios.

publicado às 15:00

Fonte
(Pato - Anas platyrhynchos domesticus)
 
Criança, ela pensava que, quando crescesse, a vida seria tal como aprendera nas histórias. Qual Gato das Botas, ardilosa e hábil com as palavras, assim tornaria o mundo um lugar melhor para os outros, e para si. Avisada, nem Formiga, nem Cigarra, saberia escolher uma profissão divertida. Assim seria fácil derrotar os monstros da fome, do escuro e do frio, sem prescindir da folia. A beleza seria o desígnio deste Patinho Feio ultrapassadas as dores do crescimento, uma qualidade natural que um dia se revelaria como um botão de rosa que desabrocha. A verdade sempre seria preferível à mentira, esse nariz de Pinóquio demasiado comprido para disfarçar. Sempre alguém andaria por perto para despertar a sua boa consciência, evitando erros estúpidos. Mas errando, encontraria no erro uma lição a extrair. A vingança, nunca uma maçã venenosa que valesse a pena fazer engolir a alguém. O amor chegaria garboso e valente, numa reluzente armadura de heroísmo. Duraria uma vida e uma morte. Confiava ela que ser uma heroína estava escrito algures num livro monumental e que a sua missão cumprir-se-ia no futuro como num conto de fadas. Se por ingenuidade se achasse na floresta, na boca do lobo, se perdesse o fio à meada do seu destino na encruzilhada dos dias, ou se achasse subitamente confusa num labirinto de escolhas, uma fada madrinha viria em seu auxílio.

Até que, jovem adolescente, acordou cedo, numa madrugada fria, no rescaldo do primeiro desgosto amoroso, com uma certeza que a abalava e combalia: era tudo uma mentira. Estava por sua conta e risco. Só podia contar consigo para derrotar os dragões do medo, da insegurança e da incerteza, e outras criaturas assim, que se atravessassem no caminho do seu triunfo. A realidade já não a deixou dormir. Havia razões para temer o desconhecido. Ser adulta devia ser então aquilo: ter uma vida pela frente, cheia de mudanças abruptas de parágrafo, pontos de exclamação, reticências. Um dia de cada vez. Um ano de cada vez. De improviso em improviso. Até à última página, até ao ponto final, sempre uma constante interrogação. Mesmo sem perceber toda a urgência com que a vida, naquela madrugada decepcionante, a chamava a ser sua protagonista sem rede, mesmo tremendo de frio, e temendo o futuro, intimamente sentia que começava ali a grande aventura. Não entendia ainda bem o que fazer. Apenas o que não fazer. E era um bom princípio.

Tema da semana: Sobre a vida adulta: ainda não entendi o que é para fazer

publicado às 15:00

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(Ganso das neves - Anser caerulescens)

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Srª. Rudolfo. Venho por esta via reclamar do resultado do concurso de recrutamento e selecção para a posição de Pai Natal que teve lugar online. Tomei conhecimento de que fui preterida em virtude do meu sexo. A legislação laboral nacional e internacional está do meu lado. O que a srª. fez foi descaradamente discriminatório! A srª. é um animal que não sabe reconhecer o que é talento. Já me informei junto da Autoridade para as Condições de Trabalho e irá ser notificada em breve. Ser assim tratada por uma rena que foi gozada pelas suas congéneres por ter um nariz diferente só prova que o poder cega mais que o nevoeiro na noite. Já se esqueceu como foi escolhida pelo Pai Natal para ser a 9ª rena do trenó? Por causa da sua luz! Porque assim se evitavam atrasos e acidentes!Também eu sei que posso fazer a diferença como o Pai Natal do séc. XXI: tenho muita luz para oferecer. Prepare-se para provar que não houve preferência de tratamento do candidato seleccionado só porque ele tem uma pila. Isto vai ser o fim da sua história radiosa, sua bola de pelo cruzada com um semáforo de trânsito! Pedirei uma indemnização por danos patrimoniais e não patrimoniais pela afronta sexista e exigências absurdas: uma fotografia de rosto, outra de corpo inteiro e cinco cartas de recomendação? Horas para conseguir preencher o curriculum vitae no formulário online do site oficial! E os dois dias que passei no Centro Médico para tratar do atestado de robustez física e psicológica? E as longas semanas a estudar geografia mundial, a santa história de S. Nicolau, a vida no árctico, a biologia dos cervídeos? A srª. sabia que a sua espécie se encontra ameaçada de extinção? E a lista interminável de catálogos de brinquedos infantis que tive de decorar? E o curso intensivo obrigatório dos 50 idiomas básicos para ler cartas das crianças e conversar com elas? Mais a formação, paga por mim, em psicologia infantil que tive de frequentar! E depois disto tudo, uma entrevista relâmpago online onde me pergunta qual é o meu maior defeito?! Tenho brevet de voo e disponibilidade para viajar para  a Lapónia amanhã. Ainda podemos resolver isto sem recurso ao tribunal. Já não bastava toda uma história de opressão patriarcal, agora, em pleno séc. XXI, inaugurar-se a história da opressão renal é muito má publicidade para o Natal, srª. Rudolfo! 

Tema da semana: O Pai Natal decidiu reformar-se e as entrevistas começam esta semana. Descreve uma dessas entrevistas na perspectiva do recrutador de recursos humanos: A Rena Rudolfo.

publicado às 15:00

Desafio dos pássaros #14: Não nasci para isto

por Belinha Fernandes, em 13.12.19

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(Pica Pau - Dendrocopos major )

Miss Parker, corpo negro, macio ao toque, adornado a ouro, possuía uma beleza intemporal. Fria e distante, ainda assim, HB admirava-a. Ela gabava-se frequentemente da sua rica história. Que descendia de linhagem importante. Quando a rendição alemã foi assinada, estavam lá. Tinham lugar em museus. Hemingway dizia-se inspirado por uma quando escrevera um livro. Privavam com os membros da família real britânica. Eram disputadas por coleccionadores. Já HB tinha um jeito modesto embora ambicioso. As suas origens perdiam-se no tempo, talvez um escriba egípcio que raspara com um estilete num papiro. Não nasci para isto, queria sempre dizer-lhe quando a via olhá-lo com desdém. Mas seria inútil. Ela estava-se nas tintas para ele.

Miss Parker recolhia-se a um estojo de veludo nas horas vagas. Ele dormia em pé, misturado com outros num copo de estanho, numa promiscuidade colorida. Enquanto ela era chamada a escrever cartas de amor, a ele cabia listar as compras da mercearia, fazer maçadoras contas, e, ocasionalmente, esboços em folhas brancas que acabavam no lixo. Durante estes devaneios criativos HB temia pelo seu corpo que via encurtar-se a olhos vistos. Alto e esguio, aproximava-se rapidamente da altura de Miss Parker. Mas nem assim poderia considerar falar-lhe de igual para igual. Também a cada queda o seu coração de grafite se partia um pouco. E mais vezes era aparado. A sua esperança de vida reduzia-se a cada volta. Uma doce tontura sempre anestesiava o corte da lâmina mas não a sensação do tempo a fugir-lhe. Não nasci para isto. Eu sei, eu sinto no mais íntimo da minha negritude, que há algo maior. Todavia, o seu momento não chegava.

Um dia a criança que corria pela casa foi ao escritório e o pai deu-lhe aquele lápis. Foi com ele que começou a ensaiar o a,b,c num caderno de duas linhas. O HB passou a dormir num estojo com a divertida Miss Bic Cristal. Transparente, despretensiosa, ainda que por dentro dela corresse sangue azul, a química entre os dois foi imediata. Viram, orgulhosos, as primeiras palavras escritas pela miúda feliz. Depois, na escola, Miss Bic Cristal escreveu-lhe a primeira redacção e ele fez-lhe uma última ilustração. A professora classificou com Muito Bom.

Hoje o velho estojo escolar, a esferográfica vazia e um lápis HB de 4 cm fazem parte do museu pessoal da minha infância. Da caneta Parker 51, possivelmente adormecida em alguma loja de antiguidades, perdeu-se o rasto.

Tema da semana: Não nasci para isto

publicado às 15:00

Desafio de escrita dos pássaros #13: Endgame

por Belinha Fernandes, em 06.12.19

 

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Fonte

 Batalha final. Três homens avançam apressados. São interceptados pelo Homem Formiga.

HOMEM FORMIGA 

(surpreendido)

Sr. Scorsese?!

SCORSESE 

(olhando em volta)

Deve estar a confundir-me com alguém. 

HOMEM FORMIGA 

E tu, baixote? Quem és? Tens um ar engraçado! 

TOMMY

(irritado) 

Engraçado? Engraçado como? Como um palhaço? Divirto-te? É? 

SCORSESE 

Deixa-o, Tommy. Não estamos no Bamboo Lounge.  

Homem Formiga 

(examinando Bill the Butcher)

Chapéu alto, amigo?! Algum casamento hoje? 

BILL THE BUTCHER 

Amigo? A que gangue pertences tu? Pelas antigas leis do combate nos juntámos neste chão sagrado para resolver para sempre quem governará os Cinco Pontos. 

HOMEM FORMIGA 

Cinco Pontos? As Jóias do Infinito, queres tu dizer. Não são cinco, idiota, são seis.

BILL THE BUTCHER

(irado) 

Idiota és tu. Cada um dos Cinco Pontos é um dedo. Se fechar a minha mão ela torna-se um punho. E se me apetecer, posso dar-te um murro. 

Scorsese

(Interpondo-se entre ambos) 

Pára, Butcher. Temos mais que fazer. Vamos.

HOMEM FORMIGA

(para Scorsese)

Gostava mesmo de um autógrafo seu mas estou atrasado. Cuide-se!

Levanta voo. 

Os três caminham de novo.Scorsese guia-os. 

TOMMY 

Ainda não entendi que guerra é esta... 

SCORSESE 

Uma que temos de vencer. Trouxeste-o? 

TOMMY  

Sim, está no meu bolso.

Bate com a mão direita no peito. 

SCORSESE 

(para Butcher)

E tu? 

Ergue a mão que segura um cutelo. 

SCORSESE 

Isto é um parque de diversões, Tommy. 

TOMMY  

De que falas? 

SCORSESE 

Deste universo cinematográfico em que nos encontramos. Cheira a estagnação. Não sentes? 

TOMMY  

Chefe, eu estou morto. Não sinto lá grande coisa. 

SCORSESE 

A arte está morta. Mas nós vamos resolver isso.

Interrompem a marcha. Scorsese aponta Thanos e o Homem de Ferro que lutam.

SCORSESE 

São eles.

TOMMY 

Chefe, a quem aplico a solução que dei ao Morrie? Ao grandalhão? 

SCORSESE 

Ao “baixote”.

Tommy sorri.

 O Homem de Ferro está de joelhos no solo. Tommy aproxima-se por trás. Agarra-o pela testa.Espeta-lha o picador de gelo na nuca. Ele cai por terra. 

SCORSESE

(para Bill)

Corta, Butcher.

Bill atira o cutelo ao ar. Ele dá voltas e cai,cortando o braço do Homem de Ferro. 

Scorsese agarra o antebraço com as Jóias do Infinito.Ergue-o acima da cabeça. 

SCORSESE

Hoje o reinado da Marvel será apagado para sempre. Em nome da arte.

Desaparece. 

SCORSESE transpõe a 4ª parede.

 SCORSESE

(para o público)

Thanos sabia: enquanto existirem os que se lembram como foi, não aceitaremos o que poderá ser.

Estala os dedos.

 CORTA.

Tema da semana: Reescreve o final de um filme

Filme escolhido: Endgame (2019), trailer, aqui

As personagens dos filmes de Scorsese:

Tommy DeVitto em Goodfellas

Bill the Butcher em Gangues de Nova Iorque

 

Martin Scorsese: “I don’t see them. I tried, you know? But that’s not cinema. Honestly, the closest I can think of them, as well made as they are, with actors doing the best they can under the circumstances, is theme parks. It isn’t the cinema of human beings trying to convey emotional, psychological experiences to another human being.”

Entrevista na Empire Magazine, Outubro 2019

 

publicado às 15:00

Na bagageira viajava uma televisão acabada de comprar na Black Friday. A casa da mãe fica no bairro dos pescadores. Raul, parado nos semáforos, foi assaltado por histórias antigas que ela contava. Ele era  filho do comandante Jota “Tubarão”, entregue não por uma cegonha mas por um albatroz. E a coruja que habitava a casa modesta e que caçava ratos melhor que um gato, enquanto ele dormia? Nunca a viu e não acreditava. Hoje, dia de aniversário, a mãe, vestida de negro desde que o mocho piara, sinal de número parnão no céu, assim antevendo a sentença do naufrágio, esperava-o acompanhada do gato que condizia com seu eterno destino.

Tinham combinado uma sopa rica de peixe. A importância do jantar festivo acompanhado por uma garrafa de vinho foi disputada por um documentário sobre aves de rapina na nova TV. Raul bebeu para estancar a náusea dos abutres a limpar carcaças. Não tinha estômago para aquilo. A mãe parecia imune ao nojo. Alimentava um fascínio por rapaces. Tarde, à porta da escuridão, ela perguntou:

– Quando voltas, filho? Daqui a um ano?

Raul iludiu a resposta e acelerou noite dentro.

A criança dormia quando Raul deslizou pelo corredor. A mulher, aconchegada na cama, perguntou por D. Adelina. Que estava bem, disse ele. O gato engordara. E foi ao duche.

Morto de cansaço, fechou a luz e apagou-se no edredão.

O telemóvel acordou-o cedo. A mãe. A televisão. Um problema. Raul, que já tinha combinado reunir com o sócio do restaurante naquela tarde, sossegou-a. Iria.

Ao final do dia, a carrinha do INEM parada à porta da vivenda isolada sobressaltou-o. Cruzou-se com um médico no passeio que logo o esclareceu: ataque de pânico. Talvez um sinal de demência. Seria bom despistar. Raul correu. A mãe não o deixou falar:

– Leva-a daqui! Aqueles pássaros não se calam! – disse, apontando o ecrã. – Não me saem da cabeça!

A mulher preparava o jantar quando ele chegou com a televisão ao colo:

–Então…?!

– Está maluca. Vou devolvê-la.

– Dá-a ao Miguel.

O dia seguinte foi de festa para o filho. Mas, noite adiantada, a criança entrou no quarto dos pais, queixosa:

– Aqueles pássaros não se calam. Não consigo dormir. Posso ficar?

Raul agarrou na almofada e foi para o quarto do infante. Sono espantado, ligou a televisão.

Manhã dentro o telemóvel tocou. O sócio queria saber o porquê do atraso de Raul.

– Pá, aqueles pássaros não se calam.



Tema da semana: Aqueles pássaros não se calam.

publicado às 15:00

Beijador (Helostoma temminckii)
 

Bom dia. Permitam que me apresente: Chernobyl, peixe kinguio japonês. Ganhei o meu nome quando desenvolvi uma enorme bola na cabeça, um tumor. Até aí era simplesmente tratado por “Peixinho”. Hoje, com 13 anos, e 20 cm de comprimento, seria ridículo. Todavia, a única radioactividade a que fui exposto é a música clássica da Antena 2 que o namorado da mulher com quem partilho apartamento põe a tocar ao sábado, mal chega a casa. Nesse dia, a rotina altera-se radicalmente. A voz dele ecoa pelo ar e faz tremer as paredes de vidro do meu aquário. Um vero Parvarotti e um beijoqueiro. A primeira vez que o vi beijá-la pensei que ele a fosse matar. Na loja do shopping, há muito tempo, conheci um peixe-beijador. Guardava respeitosa distância, embora ele fosse agressivo apenas para com os da sua espécie. Afinal o homem é inofensivo, aquilo não era briga, antes preliminar do acasalamento. (Nunca os vi a procriar, nem quero.)

À hora do almoço, ele é um mãos largas com os grânulos, diferente da mulher, sempre com a mania da dieta, uma unhas de fome. Espero em vão por coração de boi, cozido e esmigalhadinho com ervilhas semi-cozidas, levemente amassadas! Anseio por artémias, larvas de mosquito, moscas de fruta! Mas só me dão enlatados industriais. O pior é vê-los à mesa a devorar os meus semelhantes. Inicialmente, atemorizado, até julguei que me destinavam ao estômago. Vi douradas, robalos, sardinhas, e muitos outros, a chegarem ali a fumegar em bandejas metálicas! Sacrilégio! No meu país natal são mais civilizados: comem-nos crus, e até vivos, bem frescos, como deve ser! Não sei que barbárie é esta, mas a cena repete-se duas vezes por dia. Ao jantar até acendem velas na mesa como se tudo aquilo fosse um sacrifício aos deuses.

Chega a noite, novo suplício. Sentam-se abraçados no sofá a ver filmes de terror. Lá por não ter pálpebras, não quer dizer que não durma. De sono leve, a cada grito sobressalto-me, dou meia volta e provoco um tsunami. Ignoram-me. Cada vez se agarram mais um ao outro: deve ser o medo, não? E voltam aos beijos antes de se irem embora dali, apressados, sem sequer saber como a história acaba. A TV fica acesa, a luz ligada. Que desperdício. Resto eu. E que tédio: morreram todos novamente! Que filmes mais previsíveis. Humanos! E dizem-se eles os seres mais evoluídos do planeta. Pff!

 

Tema: Um dia na tua família… do ponto de vista do teu animal de estimação.

publicado às 15:00


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