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Na bagageira viajava uma televisão acabada de comprar na Black Friday. A casa da mãe fica no bairro dos pescadores. Raul, parado nos semáforos, foi assaltado por histórias antigas que ela contava. Ele era  filho do comandante Jota “Tubarão”, entregue não por uma cegonha mas por um albatroz. E a coruja que habitava a casa modesta e que caçava ratos melhor que um gato, enquanto ele dormia? Nunca a viu e não acreditava. Hoje, dia de aniversário, a mãe, vestida de negro desde que o mocho piara, sinal de número parnão no céu, assim antevendo a sentença do naufrágio, esperava-o acompanhada do gato que condizia com seu eterno destino.

Tinham combinado uma sopa rica de peixe. A importância do jantar festivo acompanhado por uma garrafa de vinho foi disputada por um documentário sobre aves de rapina na nova TV. Raul bebeu para estancar a náusea dos abutres a limpar carcaças. Não tinha estômago para aquilo. A mãe parecia imune ao nojo. Alimentava um fascínio por rapaces. Tarde, à porta da escuridão, ela perguntou:

– Quando voltas, filho? Daqui a um ano?

Raul iludiu a resposta e acelerou noite dentro.

A criança dormia quando Raul deslizou pelo corredor. A mulher, aconchegada na cama, perguntou por D. Adelina. Que estava bem, disse ele. O gato engordara. E foi ao duche.

Morto de cansaço, fechou a luz e apagou-se no edredão.

O telemóvel acordou-o cedo. A mãe. A televisão. Um problema. Raul, que já tinha combinado reunir com o sócio do restaurante naquela tarde, sossegou-a. Iria.

Ao final do dia, a carrinha do INEM parada à porta da vivenda isolada sobressaltou-o. Cruzou-se com um médico no passeio que logo o esclareceu: ataque de pânico. Talvez um sinal de demência. Seria bom despistar. Raul correu. A mãe não o deixou falar:

– Leva-a daqui! Aqueles pássaros não se calam! – disse, apontando o ecrã. – Não me saem da cabeça!

A mulher preparava o jantar quando ele chegou com a televisão ao colo:

–Então…?!

– Está maluca. Vou devolvê-la.

– Dá-a ao Miguel.

O dia seguinte foi de festa para o filho. Mas, noite adiantada, a criança entrou no quarto dos pais, queixosa:

– Aqueles pássaros não se calam. Não consigo dormir. Posso ficar?

Raul agarrou na almofada e foi para o quarto do infante. Sono espantado, ligou a televisão.

Manhã dentro o telemóvel tocou. O sócio queria saber o porquê do atraso de Raul.

– Pá, aqueles pássaros não se calam.



Tema da semana: Aqueles pássaros não se calam.

publicado às 15:00


14 comentários

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De Anónimo a 05.12.2019 às 11:18

Obrigada José! Mas não é um naco, é um torrão bem pequeno! De facto, estava a pensar na praia da Nazaré quando escrevi e havia mais detalhes que acabavam por identificá-la. Mas são apenas 400 palavras, tive de cortar. Aquele do acordar nu na praia evocava a Figueira antiga...Gosto imenso da Nazaré!
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De José da Xã a 05.12.2019 às 11:39

Eu vivi na Nazaré!
Ai que saudades, ai, ai!
Mas o texto esta fantástico.
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De Anónimo a 05.12.2019 às 15:16

:) A Nazaré tem características únicas. Além de que gosto muito da pintura do Mário Botas, lá nascido, entre muitas outras coisas. Nos últimos Verões vou sempre lá uns dias e praias em redor também, de Leiria. Depois de anos sem visitar notei uma mudança grande e muito mais gente do que recordava. É sempre um excelente passeio ir até lá almoçar um bom peixe e olhar o horizonte do "sítio do costume"!

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