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Pisco de peito ruivo (Erithacus rubecula)

- Foda-seeeee! Marta! Mas o que foi isso?

Óscar agarrava-se ao nariz dobrado sobre si mesmo. Aquela dor e o ardor que sentia na face esquerda confundiam-se. A rapariga, afogueada, imobilizara-se, as mãos sobre a boca numa oração, os olhos muito abertos a suplicarem desculpas:

- Amooorr – pronunciou, arfando, - amor.

Foi até ao quarto de banho a cambalear. A luz ligou-se e em frente ao espelho o jovem examinou-se. Os olhos lacrimejavam. Observou que pequenas gotículas de suor reluziam sobre a testa. Havia uma pequena mancha escura sobre a pele que cobre o osso zigomático ali onde a barba por fazer começava a desenhar-se. Decerto um pequeno corte que deixava o sangue aflorar. As unhas da sua mulher, pensou. E quando é que ele teria coragem para lhe dizer que detestava aquelas extremidades decoradas? A doce Marta ia todas as semanas à Julinha cuidar daqueles apêndices. Tinha orgulho naquilo. Aparecia-lhe com desenhos coloridos e vidrinhos lá colados. Mostrava-lhe aquela galeria de arte moderna como se fosse um happening. Tinham um acordo tácito: ele sorria às unhas exóticas, ela a cada nova tatuagem dele, que, juraria, a envergonhavam. Um futuro médico dermatologista com a pele coberta de desenhos. Não era adequado.

O seu cabelo estava alvoroçado. Queria tê-lo cortado para a Lua de Mel mas o tempo esgotara-se.

Leques de luz desenhavam-se na parede do quarto a partir dos candeeiros em mesinhas de cabeceira de mogno negro que ladeavam a cama. O espaldar alto estava escudado por um ninho de almofadas. Marta, transpirada, não mexia um músculo. Apenas os olhos viajavam no vazio como se em busca de algo aparentemente invisível mas que ela não duvidava estar ali. Talvez uma boa explicação para o que acabara de fazer.

Não fora o ar condicionado não se aguentaria pernoitar naquele hotel histórico. Que horas seriam? Da rua chegava ainda o ruído dos bares. Uma péssima ideia de viagem. Agosto. Calor. Multidões. Ruas sujas. Muito Tinto de Verano para empurrar a decepção. E o salmorejo que ainda corropiava no estômago.

Na palma da mão Óscar viu mais sangue. Aproximou-a. O que era aquilo? Pelos?! Sentiu a tesão crescer e apressou-se a abrir a torneira para passar água no rosto e regressar à cama.

Marta enrolou-se nele como uma aranha que envolve a presa numa teia.

- Desculpa, amor, - sussurrou, beijando-o. Mas com o vírus do Nilo todo o cuidado é pouco.

 

Tema da semana - O amor e um estalo

(Publicado em 20/09/19 no blogue Palavras Cruzadas)

 

publicado às 18:18



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