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(Gaivota - Larus fuscus)

No Verão anterior, Simão, 14 anos bem encorpados, acompanhara a primita Lúcia ao Casino para receber um jogo da Majora que ela tinha ganho no concurso. Neste, apostara com ela que ficaria em 1º lugar. Nunca supus ser a sereia que um dia o mar depositara nos braços daquele beirão moreno e de olhos pestanudos, quando, de férias na praia da Claridade, anos 60, as nossas famílias, a banhos, se conheceram. Mais novo, marinheiro de água doce no amor, a voz embargava-se-lhe quando me dirigia a breve palavra, o que eu tomava por juvenil timidez.

E foi assim que acordei nua e só numa ilha deserta sem me lembrar de nada. Simão, ajoelhado, transpirava ao sol, a cabeça protegida por um boné, o tronco nu curvado. Movimentando os braços e mãos num afã amoroso, penteava os cabelos longos com os dedos, enfeitava-me o peito de conchas e búzios, acariciando cada curva com enlevo. O júri avisou bem alto o termo do tempo. Ele sentou-se junto a mim, deleitado. Quis erguer a mão para festejar os seus caracóis negros e foi quase trágico. O antebraço desfez-se no ar. Sobravam breves minutos para Simão recompor a construção de areia.

Uma moldura humana rodeava o recinto, pais, mães e curiosos, ansiando a coroação dos pequenos grandes artistas. O júri atravessou vagarosamente o areal construindo castelos no ar com palavras de apreciação. Porém, à vista daquela ousada nudez, apenas questionaram:

– Nº 23, menino Simão Tavares, “Mulher nua numa ilha deserta”, certo?

Não, não. Aquela era Isabel, a sua paixão, que, filas adiante, apoiava a prima Lúcia, Nº 7. Chamara-a insistentemente com o olhar mas ela apenas se chegou ali já o concurso acabado:

– Tenho tanta pena que não tenhas ganho. Já pensaste um dia ser escultor?

As palavras dela souberam-lhe a tão pouco que foi dar um mergulho. Deixou a água do mar temperar-lhe o corpo e o espírito por longa hora. Quando voltou a multidão tinha dispersado e ele deitou-se ao lado da solitária escultura. Já muito tarde, o sol anunciando a retirada, o pai veio por ele, mas Simão recusou abandonar a sua mulher de sonho. Adormeceu ali. Devagar uma onda aproximou-se, e depois outra, e, sem remorsos, arrancaram-lhe aquele amor de areia dos braços. Os seus pensamentos levaram-no até casa, onde chegou, com fome e a tremer de frio, mas de coração lavado. Aquilo que o mar dá, o mar leva.

 

Tema da semana: Acordaste nua, sem te recordares de nada, numa ilha deserta

publicado às 15:00


2 comentários

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De Sarin a 08.11.2019 às 16:32

E o mar lava. O Simão sobreviveu ao desgosto, mas a sereia de areia não. A sereia nasceu na praia e viveu na memória.

Muito bem escrito, Belinha.

Não me lembro de ter andado entre estátuas de areia, com excepção dos castelos dos putos... mas, pelo que vejo, as sereias são recorrentes - em miúdos de 14 anos também :))
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De Belinha Fernandes a 11.11.2019 às 11:28

Olá cara Sarin. Em Portimão existe um grande parque, o Fiesa Sand City, onde podemos mesmo caminhar entre esculturas de areia. Mas a minha inspiração para esta historinha foi o concurso de construções na areia que se realiza desde os anos 50 em diversas praias, patrocinado sempre pelo DN, inclusivé na Figueira...Desde sexta que estive offline, só logo vou poder ler o teu Desafio! Uma boa semana!

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